19 de abr de 2017

PLATÉIA LOTADA PARA OUVIR OS MANUSCRITOS DE BUENOS AIRES - OBRAS RECÉM DESCOBERTAS DE FRANCISCO MIGNONE, EM SUA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO PÚBLICA: CONCERTO HISTÓRICO DE FERNANDO ARAÚJO E CELSO FARIA



Casa lotada na noite de 18 de abril, em Belo Horizonte, quando o auditório do Conservatório da UFMG, com seus 220 lugares ficou pequeno, mas, na medida exata para uma audiência perfeita da primeira apresentação pública dos Manuscritos de Buenos Aires. As obras recém descobertas de Francisco Mignone – um dos mais importantes compositores do século XX, completamente desconhecidas da comunidade acadêmica musical e do público geral, foram trazidas à tona, graças à tese de doutorado do violonista mineiro, Fernando Araújo.  O concerto das obras para violão, que trouxe Fernando Araújo e seu ex-aluno, o violonista Celso Faria ao palco para a mostra inédita foi de expressão singular que somou a curiosidade sobre o acervo datado de 1970 à execução primorosa das composições de Mignone, exatamente no ano em que se comemora 120 anos do seu nascimento.  
Para quem acredita em acaso, uma feliz coincidência. 
Para quem acredita em missão, o que eu chamaria de ‘Deusidência’.  

O caminho pelo qual os manuscritos trilharam desde as composições de Mignone, dedicadas ao Duo Pomponio-Zárate - casal de violonistas argentinos cujas interpretações encantaram Francisco Mignone, nos anos 70 e fizeram com que, já com quase 73 anos de idade, compusesse um conjunto de obras que deixaria a marca de seu legado eternizada em coerência com os primórdios de sua carreira – foi no mínimo inusitado. Segundo a vasta pesquisa do professor de violão da UFMG, violonista Fernando Araújo - Mestre em Música pela Manhattan School of Music de Nova York e, agora, Doutor em Música pela Escola de Música da UFMG -  após  anos sob a guarda do duo  Graciela Pomponio e Jorge Martínez Zárate,  as partituras – depois da morte do casal  caíram nas mãos de um estudante e  foram transitando em suas várias residências, pasme, guardados – ainda que por considerável relevância – em um saco de lixo! Aquele tradicional saco de lixo foi levado pelo estudante à Universidade de Buenos Aires e entregue em uma portaria da entidade. No conteúdo: peças que permaneceram, com exceção de uma (Lundu – anteriormente documentada com o título de ‘Brazilian Song’), inteiramente desconhecidas e ignoradas pela comunidade musical e acadêmica no Brasil, estando ausentes de todos os catálogos e literatura dedicados à obra de Mignone.  O acervo - embora acolhido, cuidadosamente -  ainda assim, permaneceu no local, até seu próximo destino: chegar ao conhecimento do violonista brasileiro, Fernando Araújo que, em quatro anos, não poupou esforços para compreender muito mais acerca dos manuscritos.

Na tese de doutorado, Fernando abordou os chamados “Manuscritos de Buenos Aires” em três aspectos: musicológico, interpretação e edição.  O trabalho altamente elogiado pela banca examinadora torna-se agora, certamente, material de consulta para a comunidade musical do mundo inteiro, documentando e somando valores à obra de Francisco Mignone e elevando a América Latina ao foco de importantes estudos relacionados, por exemplo, à edição de obras musicais – aspecto cuja literatura e pensamento ainda permanecem ligados à  abordagens oriundas do continente europeu. A torcida é para que a tese seja publicada em breve e, as obras, registradas fonograficamente.

Quem foi ao concerto inaugural dos “Manuscritos de Buenos Aires” pôde apreciar um repertório precioso por caráter histórico-musical, relacionado à obra de e que vêm de encontro às origens de sua obra e o forte respeito ao universo musical brasileiro. Mas, o valor do recital não se limita a este aspecto. Mergulhado no universo mignoniano, Fernando Araújo observou nas pesquisas, cada detalhe naquelas pautas, com dinâmica e percepção dos escritos originais, impecáveis. O que nos transporta para um 
lugar peculiar neste passeio pela música, guiando-nos, através dos tempos, 
para experimentar, com fidelidade, a proposta do compositor 
ao traçar notas e compassos, 
naqueles almaços que atravessaram quase 50 anos de 
sobrevivência, em obscuridade. Ouvir Fernando Araújo e Celso Faria 
nesta execução é privilégio e compromisso cultural.  Alia a beleza das delicadas 
composições à oportunidade de, em audição atenta, 
sermos testemunhas propagadoras de uma história de raro valor. 
Na platéia de estréia estavam 
apreciadores da música, músicos inúmeros, entre eles o violonista 
Juarez Moreira (co-realizador do Festival Internacional de Violão, 
ao lado de Araújo e Alieksey Viana, a produtora fonográfica 
Carminha Guerra/Selo Karmim, responsável pelo CD “Universal”, 
interpretado por Fernando Aráujo, gravado há alguns anos, 
o cantor e instrumentista Sérgio Pererê). 
É concerto obrigatório, nas melhores salas nacionais e internacionais. 
Material sobre o qual vale abrir, atentamente, o olhar. Ou, ainda, 
cerrar as pálpebras para potencializar a audição.


Márcia Francisco, jornalista e escritora - BH-MG-19/04/2017


Celso Faria e Fernando Araújo - fotos: Márcia Francisco




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