12 de out de 2013

O UNIVERSO SAGRADO DE CORTEO

por Márcia Francisco


Um universo mais que encantado. Um universo sagrado.  Esta é a essência de Corteo,  espetáculo do Cirque du Soleil em temporada no Brasil e em cartaz na capital mineira.
Corteo, que significa “cortejo” em italiano, é um desfile alegre e festivo imaginado por Mauro, o Palhaço Sonhador. Assim é descrita pela trupe, a trama do fascinante espetáculo, criado e dirigido por Daniele Finzi Pasca. Mas, qualquer palavra, resenha ou significação é pouca para traduzir Corteo.  Sob o meu olhar, o mais tocante de todos os incríveis espetáculos do Cirque.
O espetáculo nos permite um mergulho em um universo mágico residente entre o céu e a terra.  O fio que conduz a vida, nos transporta para o além e,  em dualidades várias remonta em pensamentos, memória s e emoções a  intensa e frágil experiência da vida. Ilusão, lirismo, o perfeito e o imperfeito,  o real e o irreal, o etéreo, o surreal, o velho e o novo, a morte e a vida, passeiam aos nossos olhos, na magia dos acrobatas. Quarenta anjos, se dividem em quatro tipos e amparam, protetores  e sempre bem-humorados, leves e sempre presentes, enredo e homens.  Uma anjinha ensina Mauro, o palhaço sonhador, a voar! Outro anjo ampara um cego que perde no ar o seu chapéu. Galinhas voadoras! Um homem assovia clássicos com inacreditável fidelidade e beleza. A banda precisa revela quatro pilares de pura harmonia. As vozes são sublimes, etéreas, impecáveis.

Inclusão não é novidade para o Cirque du Soleil que, a cada montagem nos apresenta as maravilhas da diversidade universal, vivendo em harmonia, exalando beleza e alegria. Há um palhaço, há uma palhacinha... ambos são encantadores e esbanjam talento.  Há um palhaço gigante... tão gigante que seu tamanho é pura ternura.  Há um teatro íntimo que traz os três e outros cinco, numa divertida versão de Romeu e Julieta, desfeita no tempo  perfeito das cenas do espetáculo inteiro.  Que palhacinha é essa que flutua sobre nossas cabeças e depende de nós para voar?  Sentido mais que sagrado da profana condição do diferente para sobreviver junto ao universo dos homens em seu ordinário. Mas, cortejamos juntos e sempre é possível transformar... Porque o Cirque revela a condição dos homens no universo dos anjos e do sonho realizado. Ali quimeras se desfazem em realidades possíveis. Vale lembrar o trabalho árduo de cada um daqueles mais de 1.300 artistas de mais de 50 países diferentes, que entregam sua verdade e arte maior à condição de nos proporcionar horas de puro acreditar. Cirque  du Soleil  é  sonho, suor, superação, sentido, sentimento, sabedoria de Ser.

Corteo já foi assistido por cerca de 6,8 milhões de pessoas desde a primeira estreia no Canadá em 2005. Sei que minha fala não faz menos unânime as universais críticas positivas ao espetáculo e seus artistas. Mas,  aqui deixo uma impressão que me tocou profundamente.  O mundo inteiro sabe que tudo no Cirque funciona com perfeição, o mundo inteiro também sabe que os roteiros são sempre de puro encantamento. Mas, me emocionei ao constatar que, para  transitar no universo entre o real e o imaginário, através do tênue cordão que liga a vida e a morte ou à pós vida, ou o tempo de quase morte ou, ainda, o instante do sonho, a ilusão do tempo, como queira denominar,  a criadora concebeu o espetáculo, apresentado num inusitado palco 360° - nos permitindo reconhecer expressões e até mesmo nos retratarmos na face contrária aos nossos assentos – assentando seu elenco em palco central que reproduzia  com precisão as proporções e o tamanho do secular e reconhecidamente sagrado, Labirinto da Catedral de Chartres, na França. Há alguns anos, estudo a força e os ícones contidos no referido labirinto, valores tão facilmente explicados, aliás, nos livros da pesquisadora Kathleen McGowan, entre outras tantas bibliografias afins. Em seu centro, uma rosácea de seis pétalas que, aliás, eu trago tatuada na parte frontal do meu ombro esquerdo.  “A rosa no centro do labirinto da catedral de Chartres é o coração de um inigualável templo construído para reverenciar o poder da oração. Foi fundamental aos ensinamentos da escola medieval de ritos, e para a mais poderosa sagrada tradição cristã que ficou perdida para nós, nestes tempos modernos. Tal rosa, traz sua perfeita correlação com a oração do Pai-Nosso”. A oração é  dividida em seis partes, cada uma correspondente a uma de suas pétalas.  Vale lembrar que o Pai-Nosso é a oração mais conhecida e rezada em todo o mundo, independente da fé que se proclame.  A rosa de seis pétalas, bem descrita como a fonte dos milagres, traz cada trecho da oração, respectivamente designando em pétalas: a fé, a rendição, o serviço, a abundância, o perdão e a superação dos obstáculos. Considera-se que o caminho para a real transformação da alma começa com o Pai-Nosso, neste exercício de vida e compreensão das pétalas que, após vivenciadas se fundem no centro da rosa (do labirinto, pois), alcançando a plenitude: o amor. Corteo constrói sua história  sobre este labirinto, em réplica perfeita e, sobre ele deslizam, flutuam, pousam e se elevam personagens e profissionais da arte fazendo do palco um milagre que celebra aos nossos olhos o mais sagrado dos mundos que une nossos destinos em conexões transcendentais e divinas.  Corteo é terra e céu, ligados e equalizados pelo Cirque, iluminando o tempo da delicadeza.

Vale lembrar que a temporada em BH prossegue até o dia 27 e os ingressos passaram a ter preço único (R$200,00 – duzentos reais) para todos os setores, em promoção final de temporada. Simplesmente, imperdível!

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