14 de set de 2012

PAULA SANTORO: NESTE MAR TEM MINAS

(por Márcia Francisco)

(foto; Márcia Francisco)

Se, como afirmou, Paula Santoro seguiu sua intuição ao criar seu novo álbum “Mar do meu mundo”, atesto que ela está em plena sintonia com seu tempo, com o melhor da música brasileira, com os sons universais e algo mais.
“Mar do meu mundo” faz acreditar que a Música Brasileira é valiosa, ainda que muitas vezes, algumas expressões que surgem por aí, pudessem nos fazer crer o contrário.
Mineira, radicada no Rio, há alguns anos, Paula canta o mar de seu mundo, deixando claro que neste “mundo, vasto mundo”, tem Minas.
Tem Minas, não somente nas composições que escolheu, cantando, por exemplo Leo Minax, Chico Amaral, Makely Ka, Kristoff Silva, Antônio Loureiro ou sobre arranjos do Uakti, convidado especial, mas, principalmente na sonoridade intrínseca nas interpretações de Paula, sua alma jazzística traz veias e teias tecidas nas inconfundíveis montanhas mineiras. E, não somente por eu ser mineira, mas, isso é mesmo um elogio, quando se trata de música. A qualidade rara da música que vem de Minas, não se restringe às melodias, celebra algo mais que nos toca profundamente.
Paula é, sem dúvida alguma, uma das mais belas vozes de Minas Gerais, das intérpretes mais preciosas que conheço, por sua irreverente entrega contínua  que rasga na voz os sons das partituras e imprime sua marca na precisão exata de seu timbre, notas perfeitamente executadas – ouvido absotuto, acabamentos perfeitos e, além da técnica dominada com louvor: um quê de verdade que só as almas que se entregam à sua missão têm.
É honra ver Minas cravada nas interpretações de Paula Santoro para Ivan Lins, Danilo Caymmi (que também é Minas), Sivuca e Glória Gadelha.
Quem diz que Minas não tem mar, percebe em Paula, mar aberto para a inclusão e o todo.
Com o Selo Borandá, o CD Mar do Meu Mundo, produzido por Rafael Vernet com direção musical dele e a própria Paula, traz o casamento perfeito entre os dois artistas. Vernet é de uma sensibilidade ímpar, pianista do primeiro time, capaz de compreender este universo amplo que a música de Paula permite abranger. “Mar do meu mundo” traz a revelação do mar intenso de Paula, com suas irreverências e mistérios.
A maré é mãe, maré cheia no ventre livre” (Mauro Aguiar e Paula Santoro)
Um momento singular do novo CD é o encontro de Paula com Uakti. O arranjo do Grupo para “Mar deserto” proporciona à Paula o exercício de seu dom de cantar fluindo livre sobre flautas, marimbas e mistérios “uaktianos”. Ouvir a faixa, nos remete à luz dos pirilampos no verão mineiro, à dança de dervixes circulando mágicos sobre areias desérticas. Viagem pessoal? A arte genuína, feita com compromisso, nos permite recriações e antologias mil.
O show de lançamento de Paula Santoro, no Teatro Alterosa, em BH, em 12 de setembro, comprova a imensidão litorânea da arte da cantora. Paula interpretou Cais, de Milton Nascimento, com propriedade diferente de tudo que já ouvi, lindamente.
No palco, acompanhada pelos músicos Rafael Vernet (piano), Guto Wirtti (contrabaixo) e Kiko Freitas (bateria), Santoro ainda nos presenteou com as participações sempre especiais de Marco Lobo (percussão) e Maurício Tizumba (tambor de congado), em interações sublimes com a platéia.Cantou “Não é céu” de Vitor Ramil e outras seletas que unificaram com primazia disco e show.
Mas, ao cantar (à) Yemanjá, fez soprar brisa de mar ao seu redor. Se não for filha de Yemanjá, erraram nos búzios, porque Paula, sagrada está na maturidade de sua arte bem vivida e nas bênçãos da Rainha do Mar. Odoiá.

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