23 de nov de 2011

Affonso Romano de Sant’Anna


O Sempre Um Papo recebe o escritor Affonso Romano de Sant’Anna para o debate e lançamento dos livros “Sísifo Desce a Montanha” (Rocco) e “Ler o Mundo” (Ed.Global). O primeiro traz poemas que renovam o tema da construção da morte dentro da vida, presente em toda sua obra. “Ler o Mundo” reúne textos sobre a história da leitura, do livro e das bibliotecas. Affonso Romano, que presidiu a Biblioteca Nacional por seis anos e foi criador do Sistema Nacional de Bibliotecas e do Proler, relata sua experiência com as políticas de incentivo à leitura, além de contar o que aprendeu com visitas a projetos da área em vários países. O debate é mediado pelo idealizador do Sempre Um Papo, Afonso Borges. Entrada gratuita.
Biblioteca Sempre Um Papo – Ler Convivendo
Ainda no dia 29, entre 10h e 12h Affonso Romano de Sant’Anna participa da cerimônia de abertura da 5ª edição do projeto “Biblioteca Sempre Um Papo – Ler Convivendo”, falando sobre a importância da leitura. Neste ano, serão beneficiadas pelo projeto as bibliotecas comunitárias: São José de Calasanz (Bairro Maria Goretti), Paulo Freire (Bairro São Gabriel), QueroLê (Aglomerado Morro das Pedras / Vila Leonina) e São Geraldo (Bairro Rio Branco). Essas instituições receberão visitas de escritores, cursos de capacitação de voluntários e doações de livros para seus acervos. O objetivo é promover a inclusão e a transformação social por meio de ações de incentivo ao hábito da leitura. O “Biblioteca Sempre Um Papo – Ler Convivendo” é patrocinado pelo Hospital Mater Dei e o Banco Votorantim, viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, da Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte.
“Sísifo Desce a Montanha”
Recorrendo ao mito grego de Sísifo, aquele que conseguiu driblar o seu destino e aprisionar a morte, ousadia pela qual foi condenado ao exaustivo e inútil trabalho de rolar uma grande pedra de mármore ao topo de uma montanha, o poeta explicita o desejo de refletir sobre a passagem do tempo e a finitude. Affonso Romano aponta os seus múltiplos exercícios de relação e diálogo com o tema e com todas as questões que o cercam: as resoluções acerca da cremação já concebida, as dificuldades em lidar com a morte última, com aquela que nos arrasta a todos para todo sempre, as mudanças no olhar do poeta, no seu modo de enxergar as coisas, e uma certa melancolia.
Porém, o olhar do poeta, que trespassa a morte, é um olhar que trespassa a vida. O poeta está vivo. Portanto, ainda que a presença da morte como tema seja evidente, o olhar do poeta volta-se e se interessa, sobretudo, pela vida que pulsa em tudo que o rodeia.
A poética de Affonso Romano de Sant’Anna continua afiada e os seus versos evidenciam seu olhar atento, olhar arguto, às várias nuances da experiência humana, do seu “estar no mundo”: o olhar crítico e contundente ao tratar das injustiças sócio-econômicas; o olhar conciliador ao chamar o presidente dos EUA, Barack Obama, a um passeio em Cartago para narrar a destruição da cidade e contar que teme que o Afeganistão seja a Cartago dos tempos atuais; o olhar amoroso ao falar do nobre sentimento que cultiva pelos amigos, pela família e por sua mulher, a quem observa pela casa, a regar as plantas, no ritual doméstico de cada dia a fluir na sua passagem; o olhar categórico ao mostrar a sua visão de Deus, onipresente, porém diferente do Deus onipresente criado pelas religiões cristãs; o olhar aventureiro ao narrar o seu fascínio por viagens, pela história das sociedades humana e os seus grandes acontecimentos; o olhar admirado na observação que faz dos animais, um outro fascínio do poeta, que desde que se pôs a observá-los está à beira do abismo e não para de se extasiar: com gato, com cavalo, com o sapo Alfredo, com a cachorrinha meiga e com os seres que habitam as profundezas marinhas; o olhar apaixonado ao revelar a tirania da musa, afirmando que não há escolha, escreve-se mesmo sem vontade, escreve-se porque não há alternativas: “Escravidão. / Escrevidão”. E pergunta-se: “Poesia: / --- alforria? // Ou consentida / servidão?” Indaga-se o poeta.
“Sísifo Desce a Montanha” é um livro cujo tema central é a morte – os medos, as angústias, os enigmas, as inquietações que rondam o assunto. O poema Véspera clarifica que não existe quem esteja preparado para a hora última, para a hora derradeira, que ninguém está à espera da morte, que ninguém está realmente pronto para o ponto final. No entanto, como pode (erroneamente) parecer, este não é um livro sobre a morte. Este é um livro sobre a vida, sobre o grande aprendizado que é viver, confirmando a máxima de que, até o último sopro de respiração, o ser humano é um eterno aprendiz. A finitude é uma das grandes questões da humanidade, senão a maior.Sísifo desce a montanha é um livro sobre a nossa breve existência neste mundo cheio de nuances, gradações e variantes.
“Ler o Mundo”
O livro reúne textos sobre a história da leitura, do livro e das bibliotecas. Em “Ler o Mundo” Affonso Romano de Sant’Anna, que presidiu a Biblioteca Nacional por seis anos e foi criador do Sistema Nacional de Bibliotecas e do Proler, relata sua experiência com as políticas de incentivo à leitura, além de contar o que aprendeu com visitas a projetos da área em países como França, China, Moçambique, Venezuela, Egito, Alemanha, Rússia e Estados Unidos. De acordo com o autor, Ler o mundo é formado por três tipos de textos. Em primeiro lugar é uma seleção de crônicas publicadas em jornais e revistas, tendo como inspiração o livro, as políticas de incentivo à leitura e a relação da literatura com outras formas de expressão. No segundo plano estão textos de conferências e aulas magnas, nas quais o autor busca mesclar a teoria acadêmica e vivências pessoal. Por fim, Affonso Romano publica depoimento sobre sua experiência à frente da Biblioteca Nacional.
Capítulo mais quente do livro, o depoimento do autor narra os desafios enfrentados na gestão da casa, dos problemas estruturais à falta de incentivo oficial, relembra o esforço para tornar a literatura brasileira presença em eventos internacionais, o desafio de modernizar a instituição e a forma como se deu sua saída da Biblioteca Nacional, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, depois de embate com o então ministro da Cultura, Francisco Weffort. O autor transcreve editoriais publicados à época em vários órgãos da imprensa, além de carta de José Saramago, na qual o escritor português comenta com ironia a saída de Affonso Romano da presidência da biblioteca: “Se os camponeses andam a ser assassinados aí sem que se mova uma palha para punir a funesta parceria polícia-latifúndio, a demissão de um Affonso Romano de Sant’Anna não passará de um pormenor simplesmente aborrecido na ‘grandiosa’ gestão de Estado. Nós é que somos parvos, que não aprendemos…”.
Affonso Romano de Sant’Anna se destaca como teórico, poeta, cronista, professor, administrador cultural e jornalista. Já nos anos 60, participou de movimentos de vanguarda, nos anos 70, trouxe a música popular, a poesia marginal e a literatura infanto-juvenil para dentro da universidade e desencadeou renovação teórica na área de letras. Com mais de 40 livros publicados e tendo ensinado em universidades estrangeiras e nacionais, à frente da Biblioteca Nacional (1990-1996) criou o Proler, o Sistema Nacional de Bibliotecas e programas de exportação da cultura brasileira. Sua obra tem sido objeto de teses de mestrado e doutorado.
Sempre Um Papo – 25 anos – Literatura em Todos os Sentidos O Sempre Um Papo é um projeto de incentivo ao hábito da leitura, criado há 25 anos pelo produtor cultural mineiro, Afonso Borges. O projeto acumula números expressivos, casos divertidos, segredos revelados e encontros inéditos com personalidades de reconhecimento mundial, dentre eles, José Saramago e Paulo Coelho. Desde 1986, foram 4.500 eventos realizados e um público de 1, 5 milhão de pessoas, tendo atuado, ao longo dos anos, em 30 cidades brasileiras.
Sempre um Papo com Affonso Romano de Sant’ Anna
Informações adicionais: (31) 3261-1501 – http://www.sempreumpapo.com.br/

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